O que é estratégico? A morte ou a vida? A imortalidade ou a mortalidade?

CARLOS EDUARDO SOARES DE ALENCASTRO*

Demócrito, Epicuro e Karl Marx

O que está presente todo o tempo? A morte imortal e a vida mortal.

A imortalidade da morte e a mortalidade da vida se encontram entrelaçadas. A morte atua sobre a vida, mas, para a morte, a vida não é apenas o organismo animal, mas toda e qualquer matéria que entra na composição da vida de um organismo animal, logo, também na vida dos vegetais e dos minerais. E a morte atua sobre toda e qualquer matéria, toda e qualquer vida sem nunca descansar, sem nunca morrer, por isso, essa sua atividade é considerada imortal. A vida sofre a morte em diversos momentos, sofre a morte do organismo animal que se decompõe e participa da vida mineral e da vida vegetal bem como da morte do vegetal e do mineral.

A vida que morre se decompõe e seus componentes participam de outras vidas que também morrem e se decompõem e participam de outras vidas e se decompõem até que todos os componentes que participaram de outras vidas e se decompuseram, se supõe, alcançam aquilo que é considerado a decomposição infinita em componentes infinitamente decompostos e que são, se supõe, infinitamente indecomponíveis, quer dizer, imortais como a morte, mas, então, a morte para em si mesma e como ser imortal se torna viva, quer dizer, vida, logo, vida imortal e, desse modo, ao mesmo tempo que acaba de vez com a vida mortal origina a vida imortal e mata a própria morte, posto que aí nesse ser que não morre mais já não atua a morte, mas apenas a imortalidade de um ser determinado como sendo a morte. Nessas condições, as suposições feitas são de um mundo onde reina a vida imortal, logo, onde não há mais vida mortal nem morte imortal, posto que esta morreu e veio a ser morte mortal.

Desse modo se chega ao fim da história da vida mortal e da morte imortal porque se chegou no mundo da vida imortal e da morte mortal no qual não há mais história, porque não há mais necessidade de espaço e de tempo ou de decomposição e finitude [alguns se referem ao Juízo Final com esse mesmo sentido de Fim da História e incluem a vida imortal no bem/paraíso ou no mal/inferno]. Mas, então, como ainda existe o mundo que supomos conhecer como sendo o mundo da vida mortal e da morte imortal? Porque ele ainda não conduziu todos os seus componentes até à decomposição infinita e, assim, não chegou ainda aos componentes infinitamente indecomponíveis, quer dizer, não chegou ainda ao mundo da vida imortal e da morte mortal? Então, por sua vez, como foi que saiu e/ou veio a ser a vida mortal e a morte imortal da vida imortal e da morte mortal?! Para que isso faça sentido, é ou não é preciso supor que a vida imortal morra e venha a ser novamente morte imortal para que possa sair da morte mortal, quer dizer, da morte, que morreu e não existe mais, algo que viva e possa vir a morrer?! Diante disso, supomos que a decomposição infinita, que teria chegado aos indecomponíveis infinitos, continua infinitamente decompondo e que, em algum momento, dessa decomposição infinita os componentes, infinitamente decompostos, se decompõem compondo, configurando um movimento de retorno ou um movimento circular que faz os infinitamente decompostos se desviarem da decomposição para a (re)composição. E, desse modo, a consequência da morte imortal é o permanente vir a ser da vida mortal.

Essas relações da morte imortal e da vida mortal estão na base do atomismo grego de Demócrito e de Epicuro e, mais do que isso, nas diferenças que eles ressaltam entre os seus atomismos. Demócrito chega até os decompostos infinitos através da morte imortal e Epicuro o segue, mas Demócrito conclui que, uma vez que se chegue aos decompostos infinitos de todas as composições finitas, se chega igualmente à realidade verdadeira e imortal e se sai da ilusão aparente e mortal. Epicuro, por sua vez, prefere fazer outra conclusão, a de que os decompostos infinitos de todas as composições finitas se decompõem infinitamente à maneira de uma ilusão aparente e imortal de uma cobra que come o próprio rabo tal qual o movimento infinito de um círculo, ou seja, permanecem se decompondo infinitamente para que a vida humana e mortal seja a realidade verdadeira. A questão é saber se o atomismo que opta pela sua permanência na consciência dos decompostos infinitos como mundo da realidade verdadeira ao qual se chega pela morte imortal e inconsciência é preferível ao atomismo que opta pela sua dissolução na consciência em composições finitas do mundo da realidade verdadeira e consciente de si mesma ao qual se chega pela vida mortal.

Ser morte imortal e não ser ou ser vida mortal e vir a ser é a questão estratégica discutida na tese de doutorado de Marx sobre as “Diferenças entre as filosofias da Natureza de Demócrito e de Epicuro”, logo, também é a mesma problemática na qual se debate Hamlet de Shakespeare: “To be or not to be, that is the question”.

Uma suposição que é completamente ignorada, melhor, desacreditada: São possíveis vidas humanas felizes que se realizem efetivamente completamente à parte da história que conhecemos? São possíveis vidas humanas plenas, vividas completamente escondidas da história conhecida? É possível ficar na vida e sair da história?! A vida consciente de si não pode ser vivida escondida?! A consciência de si vive escondida dentro de si ou vive aparente fora de si? A vida é dirigida e/ou feita pela consciência de si escondida dentro de si ou a vida é dirigida e/ou feita pela consciência de si aparente fora de si?

 “Viva escondido!” – é um dito atribuído a Epicuro. De imediato, percebemos que, no atomismo e para ele, existem dois habitantes que “vivem escondidos” que são os próprios átomos e as próprias consciências humanas de si. Num sentido favorável significa “viver na essência”, “viver no sujeito”. No sentido desfavorável significa não vir à existência e à objetividade e “não viver na existência”, “não viver na objetividade” é não existir e não ser objetivo. Mas, o que se pode dizer da essência que encontra com outra essência, do sujeito que encontra com outro sujeito? O mundo das essências e/ou dos sujeitos que se encontram é ou não é um mundo do vir a ser das essências e dos sujeitos e, logo, um mundo do vir à existência e à objetividade realizado efetivamente pelas essências e/ou pelos sujeitos que se encontram e se des-envolvem?!

Mas, “viver escondido” e fora da existência pode ser a vivência de uma esquizofrenia, para quem consegue, ou de uma paranoia, para quem não consegue. A liberdade vive de forma clara e transparente ou viver assim é viver submisso ao controle do “Grande Irmão”? O controle vive de forma obscura e oculta ou viver assim é viver liberto e na liberdade da “Essência”? Essas duas formas de consciência de si – clara/transparente e obscura/oculta, legal e clandestina – são usadas pelo poder, para se exercer e manter como poder, tal qual os dois lados de uma moeda ou como o Ying e o Yang presentes no símbolo do Tao, ou seja, de volta para o início, como as trocas do que é estratégico e presente todo o tempo: A morte imortal e a vida mortal!


* CARLOS EDUARDO SOARES DE ALENCASTRO é graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Blog: https://singularidadeabstrata.wordpress.com/  http://eduardodalencastro.blogspot.com.br

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Um comentário sobre “O que é estratégico? A morte ou a vida? A imortalidade ou a mortalidade?

  1. […] Assim, ao contrário do que se supõe, o abandono do aristotelismo por parte dos epicuristas, estoicos e céticos não é uma ignorância do sistema aristotélico e sim um conhecimento crítico do aristotelismo, quer dizer, do sistema que levou ao cume e/ou ao fim a totalidade da história objetiva da filosofia grega. O império aristotélico é dono de todos os saberes, de toda a erudição e reduz todos à condição de indivíduos que só podem usar o próprio entendimento com a ajuda de tutores ou eruditos aristotélicos. Noutras palavras, os meios de produção da filosofia grega chegaram ao fim da história objetiva da filosofia grega como meios de produção aristotélicos e, desse modo, as forças humanas de trabalho da filosofia grega ou os indivíduos gregos que só possuem a si mesmos para sobreviver se encontram obrigados a operar, empregar ou usar o entendimento a serviço e sob tutela do aristotelismo. A resistência e a luta das forças humanas de trabalho da filosofia grega se voltam e se fixam no desenvolvimento da história subjetiva da filosofia grega. (https://espacoacademico.wordpress.com/2019/07/26/o-que-e-estrategico-a-morte-ou-a-vida-a-imortalidad&#8230😉 […]

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