Mulheres que ganharam o Prêmio Nobel: desafios e resistências no campo da pesquisa

ROZENILDA LUZ OLIVEIRA DE MATOS*

RESENHA:
MCGRAYNE. S. B. Mulheres que ganharam o Prêmio Nobel em Ciências: suas vidas, lutas e notáveis descobertas. Tradução de Maiza F.Rocha e Renata Carvalho. Marco Zero. SP: 1994.

No decorrer de quase um século, três por cento de mulheres receberam Prêmios Nobel, no entanto elas sempre estiveram presentes nos mais diversificados campos de pesquisa. Então, por que essa invisibilidade?

Nas chamadas Ciências Exatas e Naturais, a situação foi muito cruel. Pesquisadoras foram confinadas em laboratórios de porões, escritórios em sótãos, esconderam-se atrás de móveis para assistir a conferências científicas, vestiram-se de homens, enfim, tiveram que tentar anular sua feminilidade em nome da aquisição do saber. Além da discriminação profissional, essas mulheres sofreram discriminação racial e religiosa, pobreza, guerra, abuso material, etc. (McGrayne, 1994, p. 13-15).

Ao ler a obra de McGrayne, confesso que em muitos momentos precisei parar a leitura para me recuperar dos impactos que cada linha me trazia. Eu já tinha um pouco de conhecimento sobre esse universo, mas assim tão detalhado e cruel eu ainda não tinha lido. Um exemplo disso foi o relato das vidas de Lise Meitner, de Marie Curie e de Rosalind Franklin. Lise Meitner trabalhou com Otto Hann no laboratório de Química Kaiser Wilhem em 1913. Ela teve que trabalhar no porão por cinco anos, porque o professor Emil Fischer não admitia mulheres em seu prédio. O maior problema de Meitner não era esconder-se em salas de conferências nem trabalhar em porões úmidos. Era a queixa de não poder aprender radioquímica sem ver as experiências de Hann, realizadas no andar de cima, com os homens (McGrayne 1994 p. 53).

Mesmo com as dificuldades Meitner e Hann publicaram muitos artigos juntos, até que a abertura de Universidades para mulheres na Prússia, em 1908, convenceu Fischer a permitir que ela trabalhasse no espaço reservado aos homens. Em uma conferência no ano de 1959, Lisa afirmou que uma professora, quando se casava, era obrigada a renunciar a profissão e que assinou apenas com seu sobrenome os artigos, para que eles fossem publicados. Ela se estabeleceu não sem enfrentar sérios problemas com suas publicações, pois muitos acreditavam que ela fosse homem e manifestaram surpresa ao conhecê-la pessoalmente. Isso me lembrou do fato de que Grace Hopper (por desenvolver a linguagem de programação COBOL) ganhou o prêmio de “homem do ano”, uma vez que este não era concedido para mulheres.

Nesse período da ciência, o trabalho das pesquisadoras (colaboradoras) não era remunerado e, no caso de Lisa, foi somente anos mais tarde, quando Max Planck (considerado o fundador da Mecânica Quântica) a contratou como assistente, que ela passou a ganhar o que lhe permitia tomar um café com pão, sendo somente a partir de 1911, que lhe foi concedido um salário como professora associada. Após 30 anos de pesquisa e aproximadamente 150 artigos publicados, Lisa não recebeu o prêmio Nobel, mas seu colega de laboratório, Otto Hann, foi agraciado em 1944 com o prêmio em Química. Em 1977 a IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry), órgão internacional regulamentador de toda a nomenclatura química, homenageou Lise Meitner dando ao elemento químico de número atômico 109 o nome de Meitnério (símbolo Mt) (Matos, 2019).

Situações desse tipo não ocorreram somente à Lisa, muitas pesquisadoras tinham que adotar nomes masculinos para terem seus artigos publicados, mas a surpresa não demorava chegar quando outros professores iriam conhecer o “grande pesquisador” e a cara de desapontamento aparecia. Outros pesquisadores não admitiam mulheres nos laboratórios para que elas não os “distraíssem” com seus cabelos cacheados caindo no balcão. Tais atitudes nos levam a pensar que os homens eram animais que não conseguiam dominar os instintos e que, por ser bonita a mulher deveria ser assediada.

Emmy Noether (1882-1935), era uma judia que dava aulas clandestinas de Matemática e que também frequentava as Universidades alemãs escondida, pois nenhuma mulher poderia graduar-se legalmente em sua época. Emmy criou a álgebra abstrata e “Os matemáticos alemães usaram a matemática da “judia”, sem mencionar seu nome. Era como se ela nunca houvesse existido” (McGrayne 1994, p. 75).

Não há espaço aqui para citar todas as mulheres que pesquisei ou que são trazidas nesta importante obra, isso seria tão necessário quanto prazeroso. Talvez ainda encontremos pessoas que não conseguem compreender essa “ausência” e afirmem que as mulheres não foram impedidas de estudar ou de fazer pesquisa, mas basta olhar a história de modo um pouco mais crítico, e ver que tal pensamento não procede. Não é correto afirmar que elas “não fizeram porque não lutaram o suficiente ou porque não quiseram”. Isso é fruto do pensamento, conservador, machista e ingênuo!

Eu me perguntei, por que elas ainda continuaram fazendo pesquisas? E essa resposta a autora trouxe no decorrer de suas páginas: “O que as impediu de desistir, como tantas outras? Em primeiro lugar, elas eram apaixonadas pelas ciências.” Uma resposta simples e direta que deveria ser natural e normal, mas, no mundo em que vivemos, essa resposta ainda causa surpresa. Nossa! Você faz Física??? Assim como foi com Jocelyn Bell Brunell (1943), astrônoma e física que anunciou a descoberta dos pulsares, uma classe inteiramente nova de estrelas que fornecem pistas sobre a evolução e morte das estrelas, abrindo para a Astronomia e a Física novos campos de pesquisa sobre a matéria superdensa, campos magnéticos, relatividade e gravidade. Em sua primeira entrevista após a descoberta, os repórteres fizeram as seguintes perguntas para ela: Você é mais alta ou mais baixa que a princesa Margareth? E a outra pergunta: quantos namorados você já teve? Faça uma carinha feliz, querida! Você acaba de fazer uma descoberta! (McGrayne p. 371).

As cientistas de hoje, ainda se escondem embaixo de móveis, trabalham em porões, sofrendo assédios, sem equipamentos e sem salários? Não. De um modo geral a discriminação aberta desapareceu (nem todas), mas apenas algumas cientistas como Marie Curie são mencionadas nas aulas e, quando começamos citar as outras mulheres, já corremos o risco de receber severas críticas, mas o fato é que muitas mulheres conseguiram passar por cima das regras e proibições explícitas que negavam o locus formal da produção científica. Essas censuras também aconteceram devido ao endossamento e legitimação de uma concepção da feminilidade como sendo inferior e, quando uma mulher aparecia no campo da ciência, os homens e até mesmo outras mulheres manifestavam estranheza e, lamentavelmente, a tendência é agredir o que não se compreende, é afastar o que ameaça a comodidade de uma sociedade cristalizada no preconceito e no modelo patriarcal.


* ROZENILDA LUZ OLIVEIRA DE MATOS é Doutora pelo Programa de Educação para a Ciência e a Matemática – UEM – Mestrado em Educação (Políticas da Educação) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Especialista em Orientação Educacional, graduação em Pedagogia pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão PR (1998). Segunda Graduação: Licenciatura em Filosofia (FAERPI). Tem Experiência na área de Educação (Ensino Fundamental), gestão escolar (Direção e coordenação) e formação de professores (Ensino Superior). Participa do Grupo de Estudos e Pesquisas em História e epistemologia da Ciência – UEM. Grupo de Pesquisa Quo Vadis.

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