Um conto de fadas ou a saga do herói?

ROZENILDA LUZ OLIVEIRA DE MATOS*

RESENHA:
COELHO, N. N. O conto de fadas: símbolos, mitos, arquétipos. Editora DCI, SP, 2003.

Nelly Novaes Coelho, paulistana, nascida em 1922. Taurina, não que seja relevante o signo, mas consigo imaginar ela teimosamente escrevendo, assim como eu. Nelly Coelho é um grande nome na Literatura Infantil criando, em 1980 na USP, essa disciplina na área de Letras, visando a formação de quem trabalhasse com a educação das crianças.

A autora começa com o tópico “As fadas estão de volta” e, ao final, nos lembra que elas nunca se foram, e apesar de os tempos modernos estarem delineados pela cultura cibernética, a magia se faz presente, o sobrenatural, os mistérios e as forças ocultas. Assim, multiplicam-se livros sobre os temas mais diversos onde no mundo da magia vários autores se destacam, dentre eles o resgate do grande mitólogo Joseph Campbell.

Para a autora, a literatura é um ato de relação do eu com o outro e com o mundo e embora os tempos mudem, a natureza humana permanece. Para os mitólogos os mitos são eternos e servem para a coesão da ideologia, seja ela qual for. No tópico sobre ciência e mistério a autora escreve que as contínuas descobertas abalaram as certezas absolutas sobre as quais a ciência materialista se alicerçava e os dogmas vão caindo por terra. Uma coletânea infantil publicada no século XVII na França por Charles Perrault reuniu em oito contos as memórias do povo nas quais as princesas aparecem nos contos de fadas de forma mais elaborada. Essa proposta me leva a pensar, quando vejo os títulos e leio os contos, no porquê nenhuma princesa tem mãe. Bela, Cinderela, Branca de Neve, Princesa Jasmine, Ariel, Anna e Elsa, Tiana, Pocahontas, são algumas, dentre muitas, destituídas da presença materna. A Merida tinha mãe, mas a transformou em um urso. Muito se cogita sobre o porquê disso e, contrário a isso, eu acredito que a falta da mãe indica e justifica a forte busca pelo “príncipe salvador” (menos a Merida é claro! Diva que entrou no torneio para disputar o direito de ser dona de si). 

Depois vieram as fábulas e parábolas escritas por La Fontaine e os contos dos Irmãos Grimm, grandes estudiosos de mitologia e assíduos frequentadores do Castelo de Heidelberg. Os contos de Grimm, publicados entre 1812 e 1822, eram para crianças e adultos e já possuíam uma influência do ideário cristão que se consolidava no romantismo da época. Nessa linha, Hans Christian Andersen acrescenta, décadas depois, 168 contos publicados entre 1835 e 1877 nos quais o ideário do cristianismo estava bem difundido e que transmitiam a ideia de que a vida é um “vale de lágrimas” que vale a pena ser vivido, que os sofredores merecem o céu. Contudo, pouco fiel às suas ideias, o próprio Andersen buscava seu “lugar ao sol”, lutando para superar as injustiças sociais do período em que viveu. Foi ele que mudou o perfil dos contos, acrescentando mais romantismos às tragédias medievais, como o abandono de João e Maria na floresta, entre outros, adaptando o conto para as crianças.   

Os contos de Andersen sempre salientavam a defesa dos direitos, a justiça, a consciência da precariedade da vida, o incentivo à fraternidade, a condenação dos pecados capitais, valorização da obediência, pureza, modéstia, virtudes. Tais aspectos virtuosos eram mais incentivados para as meninas do que para os meninos; na verdade, para a mulher, era uma obrigação. Esse era o ideal patente em todos os contos de fadas sobre o feminino, consagrado pela tradição: pura/impura, bruxa/fada, feia/bela, mãe/madrasta, servil/rebelde, etc. O que diria Andersen se soubesse que hoje muitas meninas se identificam mais com as bruxas do que com as fadas? 

Sobre as fontes arcaicas dos contos de fadas, a autora apresenta linhas sobre manuscritos egípcios, fontes orientais (Calila e Dimna: dois chacais que são os personagens centrais nas tramas que envolvem as paixões humanas). Não poderia deixar de citar “Sendebar” ou “O livro dos Enganos das Mulheres”, onde está a gênese das narrativas do Ocidente, que difundem em palavras de cortesias e moralizadoras o ódio às mulheres, advertindo aos leitores sobre “o engano e as intenções das mulheres”. Essa obra de período incerto entre os séculos IX a XIII foi traduzida para o persa, árabe, siríaco, hebraico e castelhano.  Na sequência temos os contos das “Mil e uma noites” no qual a mulher possui o peso de ser a pura, casta, obediente e delicada e as grandes aventuras eram vivenciadas pelos homens.

Muitas são as fontes dos contos e o amálgama medieval vem junto: o marido que brutaliza a esposa (Grisélidis), o pai que deseja a filha (Pele de Asno), abandono dos filhos em florestas, devoradores de crianças etc. De todo modo, a origem dos contos é incerta pois nota-se fortes semelhanças em várias fontes antigas, seja grega, romana, fenícia, nórdica ou as intermináveis novelas da cavalaria onde os Bardos seguiam improvisando, cantando, registrando e perpetuando memórias. Citando Bardos, lembro que aparece um nas obras “The Witcher” o qual acompanha o Geralt em suas aventuras. As novelas de cavalaria nasceram das entranhas da Idade Média nos ciclos carolíngio, bizantino, céltico-bretão, escandinavo (O Beowulf), gauleses e vivem até hoje.

Foi pela escritora Marie de France que os lais Bretões, que são narrativas e contos curtos, rimados e que falam do amor cortês medieval se propagou na Inglaterra e na França.

Enfim, a autora termina seu livro trazendo o peso dos mitos, símbolos e arquétipos sobre as narrativas pois, para ela, os mitos são aqueles que nascem na esfera do sagrado, arquétipos correspondem à esfera humana e os símbolos à esfera da linguagem, pela qual os mitos e os arquétipos são nomeados e passam a existir como verdade a ser difundida e transmitida através dos tempos. Ela também lembra do papel da psicanálise na interpretação dos contos de fadas e na reflexão sobre os arquétipos, principalmente no que diz respeito às mulheres.

A simbologia do maravilhoso e as interpretações passam por várias perspectivas e a autora fala sobre elas, citando Freud, Wundt, Jung e dessa forma recomendo a leitura dessa obra que traz muitas referências para quem quer adentrar o mundo dos contos de uma forma mais aprofundada, que dirige seus apontamentos para uma verdadeira reflexão sobre o “eu” e o “conhecimento”.

Sob o meu ponto de vista, os contos, os mitos, fábulas e narrativas épicas tratam do caminho trilhado solitário, assim como Ulisses, que tantas aventuras viveu! Mas seu caminho não foi maior do que de Penélope que, sem sair do Castelo, viveu os mesmos passos e aventuras, apenas tecendo e desfazendo dia e noite seu bordado. Só afirma que Penélope não viveu as aventuras quem pensa somente no mundo exterior, mas se tem algo que os mitos nos mostram é que não importa a narrativa, você vai ter que ser o seu próprio herói, vai ter que sair da torre, matar o dragão, atravessar a floresta, dormir no relento, olhar o sol e seguir, pois é sempre você que escreve a sua própria história, ninguém pode vivê-la em seu lugar.


* ROZENILDA LUZ OLIVEIRA DE MATOS é Doutora pelo Programa de Educação para a Ciência e a Matemática – UEM – Mestrado em Educação (Políticas da Educação) pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Especialista em Orientação Educacional, graduação em Pedagogia pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão PR (1998). Segunda Graduação: Licenciatura em Filosofia (FAERPI). Tem Experiência na área de Educação (Ensino Fundamental), gestão escolar (Direção e coordenação) e formação de professores (Ensino Superior). Participa do Grupo de Estudos e Pesquisas em História e epistemologia da Ciência – UEM. Grupo de Pesquisa Quo Vadis – UEL.

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