“A aula não é dinâmica, professor!”

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

Penso que “defasagem” seja um termo bem oportuno para pensar a relação discente/docente no ensino público superior de humanidades, porque me faz pensar que estamos em “fases” (em sentidos espacial, temporal, político, ético e sociológico) bem distintas da “geração” já socializada em rede social e comunicação digital no capitalismo flexível periférico do Brasil.

“Geração”, aqui, é um termo burguês-tecnicista, porque pressupõe geração sociologicamente definida pelo acesso às mídias digitais e seus padrões de comunicação hegemônicos: “textão” não pode; diálogo maiêutico sobre categorias, postulados, paradigmas e “opinião” também não pode, porque é chato, prolixo, pedante, “elitista” (pasmou?!) e não chega logo na resposta… Uma pergunta sufocante de pessoa socialmente sufocada: “Professor, não dá para falar em linguagem de leigo?

“Complicar” provoca até ostracismo social, “cancelamento” do indivíduo que não cumpre as expectativas da relação pergunta/resposta “simples”: “O senhor complica para responder as perguntas mais simples… Não tenho maturidade para isso”. Atualmente, um “docente que complica tudo” tem baixíssimo coeficiente estratégico de “aturidade” social para discentes que vivem com pressa de chegar a resultados. Se tenho coeficiente baixo de “aturidade” social, isso significa que sou altamente “cancelável”.

Ora, no meu campo investigativo de ensino e pesquisa na universidade federal (sou professor 40 horas D.E., pago por impostos), qualquer pergunta discente é sempre sintoma de localização social, cultural e histórica. Um discente pode vir vestido de tecnologia digital e preencher o “diálogo” com perguntas bem retrógradas, carregadas de crueldade social. Alguns nem conseguiram chegar no presente e relativizar o seu lugar de enunciação, categorização e julgamento. Não é necessariamente meu papel prover resposta (escolho pontualmente quando faço isso), mas provocar caminhos autocríticos e reflexivos de busca.

“O professor é de Oxóssi?!”. Sim, mas do tipo mais velho, parabolante: “Caçador que alimenta a tribo, mas não a ensina caçar, mata o seu futuro em nome de um interesse particular presente de domínio material e carismático”. Não é meu caso: não favoreço o mecanismo social-psíquico da personalidade autoritária e da síndrome de Estocolmo. Mas é claro que, para alguns, o professor de história deveria ser uma enciclopédia digital que descomplica – algumas plataformas digitais propõem tal papel “descomplicador”. Este é o padrão de passabilidade para o docente de história ser “aturado”: ser um descomplicador enciclopédico, resumido, mas com bombásticas firulas digitais. Logo, a minha “aturidade” é baixíssima enquanto “geração” docente.

E vejo que o problema não é o meio de comunicação, mas como ele é operado para/por dinâmicas sociais que não produzem bem-estar, entulhando demandas, achatando o tempo, pelo recurso tecnológico ser utilizado com fins que mantêm um paradigma capitalista e tecnicista na relação com a produção do tempo e convívio social, o que afeta a forma de conceber padrões de relevância para conhecimentos, pessoas, memórias e heranças.

Parece um paradoxo estrutural: a tecnologia é utilizada para uma cruel ideia de autonomia sem emancipação do tempo para a profundidade reflexiva e re-propositiva de perspectivas sobre a vida social e a nossa relação com o mundo natural. Os padrões de comunicação digital (na “mão” de androides) têm sido sintomas cruéis exponenciais do “se vira aí” neoliberal.

“Uberização” é um termo novo para formas de precarização do trabalhador urbano semelhantes àquelas contra as quais lutou o socialismo, o anarquismo e o sindicalismo da segunda metade do século XIX na Europa. Há uma programática falta de interesse para o que não dá resultado imediato, para o que cobra responsabilidade coletiva processual, um desmonte de ágora já sinalizado há quase dois séculos por B. Constant como o moderno do liberalismo. Isso é a outra face de Juno do “empreendedorismo” num país que cobra dos miúdos “empreendedores” juros altíssimos de acesso ao crédito.

Penso muito na questão das linguagens horizontais de poder que banalizam a precarização da vida, alimentam vítimas colaborativas e padrões programáticos circenses de toxidade social pragmática: “ética das oportunidades” baseada na “livre” (precarizante) “concorrência” (dos mais “aptos”), como se “capacidade” e “oportunidade” em sociedade fossem algo de foro moral individual. Nesse esquema de vida, a ideologia não é unbutu: a tribo que cria o filho é escondida ou esquecida quando o filho cresce. É um crescer que o torna miúdo: alienação de girino que se torna adulto e esquece que já teve cauda.

Trata-se de uma ideologia (neo)liberal com grande potencial fascista porque positivadora do comportamento de vírus como paradigma de conduta coletiva pulverizada: forma indivíduos-grão-de-areia, alienados da mobilidade de dunas. O vírus é o contestável “ser vivo” primitivo que, para existir e se reproduzir, precisa destruir a sustentabilidade de seu meio ambiente hospedeiro. O vírus é presente e ontem, mas seu futuro é uma remodulação de buracos existenciais.

São os “novos” primitivos: firulas oníricas tecnicistas consumistas; condutas pragmáticas; posturas bélico-linguísticas e bélico-políticas que “cancelam” pessoas e diálogos, etc. Enfim, a banalização de oportunitivismos necropolíticos darwinistas. Mesmo uma retórica de inclusão calcada em importantes agendas sociais identitárias se vê tragada pelas mesmas condutas de linguagem de oportunitivismo necropolítico: A sua “guerra de posição” dentro da mesma estrutura não evolui para uma “guerra de transformação”.

Não dá para exigir igualdade com firulas “neo”-identitárias e, ao mesmo tempo, pactuar com o capitalismo flexível. Este só “reconhece” que o rio de Ailton Krenak era seu avô se puder vendê-lo como ideia exótica, étnica, lenda indígena, parábola ou metáfora inspiradora de livro de bolso para indivíduos-grão-de-areia. De onde vem o papel do livro? De onde vem a tinta? Afinal, que padrões de linguagem em mídias digitais hegemonizam atenção, assunto e abordagem em nossas vidas? É risível o avô que se embanana com o celular? Hum… Mas a banana que você come foi o celular que plantou ou seu avô?

Por que tanta dificuldade discente de manter atenção numa conversa maiêutica, como se o docente tivesse de repetir padrões discursivos e marcas visuais e sonoras de “web influencer” para “a aula ser dinâmica“? Uma espécie de tutela resumista tácita é exigida nessa “dinâmica”: “Não tenho tempo… Explica, resume e me diz como devo pensar sobre tal assunto. Se eu me sentir afinizado(a), eu sigo você“. E “para eu me sentir afinizado, isso precisa fazer parte da minha realidade”, ou seja, ser “familiar” ou “leigo”. Ilhas, portanto, com potencial fascista.

É uma expectativa, em si, fascista e colaborativa com o achatamento do tempo e precarização de direitos: para o indivíduo-grão-de-areia – este produto social do neoliberalismo –, é mais racional, prático e rápido pressionar socialmente o docente para ser menos, do que ele mesmo adunar-se para ter outra relação social com o tempo. Para adunar-se, precisa dar atenção à política, mas ele “não tem tempo” ou “político é tudo igual”. Sem perceber, deseja que o trabalho intelectual e político do docente se adapte às suas vidas feitas de precarização social, econômica, política e ética.

Trata-se de uma dinâmica estrutural muito cruel esta que pressiona a vida social para ser provida com “resumos tutelares”, de preferência imagéticos e excitantes: “Professor, não tem um filme para facilitar a matéria?”. Tenho, mas não facilita: “Fahrenheit 451“? Vai? Comparativamente, “ser para livro“, “ser escuta” e “ser ideia estranhadora dos hábitos de percepção e categorização” parece algo sofisticado demais para tanto primitivismo viral do capitalismo flexível periférico no Brasil, a formar sujeitos idiotizados que se sentem autorizados idiotizadores, o que independe do campo político onde estão.

A impressão é que a “fase viral” em que os meus discentes estão é bem primitiva, uma seara social perigosa para manutenção de “bolsonarismos”. Mesmo quando se pronunciam contra, não se percebem colaborando com as mesmas linguagens e condutas cotidianas (anti-intelectuais) de tutela, precarização e achatamento do tempo que banalizam interesses pragmáticos sobreviventistas de indivíduos-grão-de-areia, condição ética e social que torna o presidente “bozo” politicamente possível.


* ALEXANDER MARTINS VIANNA é mestre e doutor em história social pelo PPGHIS-UFRJ. É professor de história moderna do Departamento de História da UFRRJ, campus de Seropédica.

Um comentário sobre ““A aula não é dinâmica, professor!”

  1. “Por que tanta dificuldade discente de manter atenção numa conversa maiêutica, como se o docente tivesse de repetir padrões discursivos e marcas visuais e sonoras de “web influencer” para “a aula ser dinâmica“?”

    Está cada dia mais difícil! Qual o sentido da docência e qual a função social da escola e da Universidade? O sentido vem se perdendo pelo caminho … ao mesmo tempo que temos a ilusão de estamos “conectados”.

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