Eleições no Brasil – Lula vence Bolsonaro, mas o futuro do país é incerto

Hermann Dierkes entrevistou o cientista social Prof. Antônio Andrioli*

Foto: Deysi Hickmann

Foto: Deysi Hickmann

1. Lula venceu o segundo turno contra o presidente Jair Bolsonaro. Como você avalia o resultado?

É uma vitória para a democracia. Após uma campanha eleitoral muito difícil, na qual Bolsonaro e sua equipe não apenas inundaram o país com suas famosas Fake News, mas confrontaram todo o processo eleitoral para tentar garantir sua reeleição. Bolsonaro também usou da estrutura do governo, muitas vezes de forma ilegal (inclusive pressionando as pessoas que dependem de auxílios governamentais), distribuiu enormes recursos através de um orçamento secreto para políticos de sua área de influência e chegou a determinar que o comando da polícia federal agisse no dia da eleição para obstruir eleitores em seu caminho para os locais de votação. Mas, ele é o primeiro presidente a não ser reeleito na história do Brasil, apesar de uma campanha milionária, patrocinada pela maioria das grandes empresas, que tentaram pressionar seus trabalhadores a votar em seu candidato. O candidato derrotado levou quase 3 dias após a eleição para falar publicamente, e apenas emitindo formulações duvidosas. Grande parte da população sentiu um alívio após esses últimos anos tão difíceis (crise econômica, cortes sociais, pandemia, etc.). Embora o resultado eleitoral tenha sido muito próximo (50,89% contra 49,10%, com mais de 2 milhões de votos a mais para Lula) e o bolsonarismo tenha conseguido se expandir tanto no parlamento quanto na sociedade. Esta grande vitória de Lula mostrou que é possível enfrentar o autoritarismo crescente. Ela também demonstrou a importância de grandes frentes políticas para derrotar o proto-fascismo e não reforçá-lo ainda mais com uma possível reeleição. O fracasso de Bolsonaro também é importante, porque ele foi um dos mais influentes populistas de direita do mundo depois de Trump. Pode-se dizer que este resultado eleitoral traz uma esperança para a democracia, para a paz e para um mundo mais sustentável. Isto pode ajudar nas mobilizações sociais em favor da justiça, da democracia e da proteção climática em todo o mundo.

2. O que Lula precisa fazer para superar a divisão política no país?

Lula já tentou fazer isso com seu primeiro discurso após o anúncio dos resultados das eleições, quando ele convidou a população a se unir em torno da ideia de “um mesmo país”. No entanto, a sociedade brasileira está fortemente dividida há séculos. Durante a ditadura militar (1964 a 1985), frequentemente se fazia referência ao país como uma “Belíndia”, como se 20% vivesse como na Bélgica e 80% como na Índia. Após a democratização, falou-se mais de uma “Italordânia”, uma ilha de ricos que viveriam como na Itália (não mais tão ricos como na Bélgica), em meio a uma multidão de pobres vivendo em uma situação análoga a da Jordânia (onde a renda per capita era três vezes maior do que na Índia). A divisão não é apenas política, mas principalmente econômica e decorrente de uma das piores desigualdades sociais do mundo. No entanto, no decorrer das últimas décadas, esta situação se tornou politicamente consciente e passou a ser cada vez mais criticada por amplos setores da sociedade. Por outro lado, se espalhou um ódio crescente, especialmente entre as classes alta e média em relação aos mais pobres. Mais tarde, isso deu origem ao populismo de direita. Como isso pode ser superado? Lula se posiciona em favor dos menos favorecidos do país, os que mais precisam da ajuda do governo. Isso pode ser chamado de polarização política, como fazem muitos meios de comunicação no exterior? Na minha opinião, a polarização vem mais da direita, de modo que nesta eleição nem foi mais possível constituir uma candidatura da assim chamada terceira via para a corrida presidencial. Porque foi Lula quem representou melhor uma candidatura de centro entre os 11 candidatos, convenceu muitos de seus adversários políticos do passado a construir uma grande aliança com ele e, provavelmente, também irá formar o governo com base nesse acordo. A questão crucial, entretanto, será até que ponto um novo governo Lula conseguirá implementar as conquistas de seus dois mandatos anteriores, que ele concluiu com 83% de aprovação, em um contexto completamente alterado pelas crises econômicas, políticas, sociais, ambientais, sanitárias e culturais do Brasil, sem desencadear outra onda de despolitização, decepção e indignação em amplos setores da sociedade.

3. A esquerda brasileira, especialmente o PT (Partido dos Trabalhadores), foi capaz de se recuperar politicamente após a queda de 2015?

Após o golpe de 2016 contra a presidenta eleita Dilma Rousseff, a subsequente condenação e prisão de Lula por suposta corrupção, muitos previam o fim do PT. Em 2018, o desprestigiado parlamentar Bolsonaro conseguiu aproveitar o contexto de ódio que estava sendo propagado contra o PT para concorrer às eleições praticamente sem nenhum programa e, apesar de sua alta taxa de rejeição, foi ajudado pela ausência de Lula como candidato adversário. Também naquela época os brasileiros elegeram um parlamento com a maior presença da direita na história do Brasil e toda a esquerda parecia estar no “fundo do poço”. Estando no governo, Bolsonaro e sua equipe (incluindo seus filhos de extrema-direita) ocuparam diariamente o espaço público com temas que atraíam seu eleitorado (especialmente evangélicos, grandes proprietários de terras e apoiadores do Exército). Tratava-se basicamente de uma assim chamada agenda moral conservadora contra os direitos humanos e a igualdade social, assim como de discriminação contra as minorias e de rejeição das estruturas democráticas. Ao liberalizar a posse de armas, seguindo o exemplo dos Estados Unidos, ele procurou armar especialmente seus apoiadores e fomentou a ideologia ultra-liberal de uma completa liberdade para o capital. Numerosas leis foram criadas recentemente de acordo com essa orientação. A proteção ambiental e climática, pequenos agricultores ou povos indígenas foram vistos como obstáculos ao crescimento econômico e duramente combatidos. Tal ideologia, que podemos chamar de bolsonarismo, aumentou enormemente na sociedade e também deslocou muitas instituições (especialmente policiais, militares e judiciárias) cada vez mais para a direita. Importantes agências de proteção ambiental foram reduzidas ou simplesmente dissolvidas. Se defender nesta situação foi um trabalho enorme para toda a esquerda, já que ela foi duramente atacada com notícias falsas, odiosas e caluniosas, em todas as áreas, especialmente na educação e na cultura. Em 2022, esta “bolha ideológica”, que se tornou cada vez mais desconectada do mundo real, especialmente através das assim chamadas mídias sociais, infelizmente não diminuiu. Pelo contrário, ela parece ser mais forte do que o próprio Bolsonaro. Mas, na cultura política brasileira, fortemente influenciada pelo culto à personalidade, Lula conseguiu crescer mais do que toda a esquerda nessas eleições. Com mais de 60 milhões de votos, ele conseguiu o melhor resultado histórico de um candidato presidencial em um segundo turno. Tanto o PT quanto o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) conseguiram se recuperar um pouco, se compararmos os resultados eleitorais atuais com os de 2018. No entanto, o Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal) avançou ainda mais para a direita do que já estava há quatro anos. Isto é extremamente problemático para o futuro. A extrema-direita provavelmente poderia ter vencido com outro candidato, por mais contraditório que isso pareça. Em outras palavras, o bolsonarismo emergiu das eleições mais forte do que sua própria figura principal. Os intensos bloqueios de estradas e as manifestações em frente aos quartéis militares na semana seguinte à eleição, desafiando a vitória de Lula no estilo Trump e chamando os militares para intervir, já constituem um aviso sério. Há pouca probabilidade de que o bolsonarismo se limite apenas às atividades parlamentares. Resumindo: antes das eleições de 2018, Lula, que era o favorito em todas as pesquisas eleitorais, foi condenado ilegalmente a longas penas por suposta corrupção e preso por juízes e promotores de justiça, que agiram com claras motivações políticas. Eles queriam, como ele mesmo afirmou, “enterrá-lo vivo” para impedi-lo de ser eleito. Em 2022, Bolsonaro tentou por todos os meios ser reeleito, sobretudo para evitar ser responsabilizado criminalmente em um cenário em que não seria mais presidente. Sua atitude desastrosa durante a pandemia de Covid19, conivente com centenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas, sobre as quais já existe um relatório detalhado de uma comissão de investigação do Senado, seus constantes ataques golpistas ao Supremo Tribunal Federal e as intervenções na nomeação de cargos na chefia da polícia federal para, entre outras coisas, tentar encobrir assassinatos políticos e impedir processos contra seus filhos igualmente corruptos fornecem material suficiente para isso. Mas em sua tentativa de ser reeleito, ele perdeu exatamente para Lula, cujas condenações foram declaradas nulas e sem efeito pelo Supremo Tribunal Federal porque formam motivadas politicamente e impostas por juízes tendenciosos. Lula será presidente pela terceira vez a partir de janeiro de 2023 e o PT também se recuperou significativamente nestas eleições.

4. Isto pode ser medido pelo sucesso eleitoral? Qual é a composição de grupos parlamentares importantes no Congresso Federal e nos diferentes estados?

A Câmara dos Deputados e especialmente o Senado Federal se tornaram, como eu disse, ainda mais reacionários nestas eleições. A título de comparação, quando Lula foi eleito pela primeira vez em 2002 e o PT registrou sua maior vitória, ele pôde contar com 91 dos 513 deputados federais e 13 dos 81 senadores. Desta vez, com toda a aliança do PT com o PC do B (Partido Comunista do Brasil) e o PV (Partido Verde) ele pode contar com, no máximo, 80 deputados e 9 senadores (embora o PT tenha passado de 56 para 69 deputados e de 6 para 9 senadores – PC do B e PV não têm senador). Lula provavelmente também poderá contar com o PSB (Partido Socialista Brasileiro) do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (14 deputados e 2 senadores) e com a Federação PSOL/REDE (14 deputados e 1 senador), de modo que um máximo de 108 deputados (21%) e 12 senadores (14%) poderiam formar a base de apoio do governo. Bolsonaro, por outro lado, tem uma clara maioria parlamentar: só o Partido Liberal (PL), ao qual Bolsonaro agora pertence, elegeu 99 deputados e 13 senadores, tornando-se o maior partido no Congresso Nacional dos últimos 24 anos. Somente o PFL (Partido da Frente Liberal), que surgiu da ARENA (Aliança Renovadora Nacional, o partido oficial da ditadura), havia conseguido algo semelhante com 105 deputados e 5 senadores em 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi reeleito contra Lula. O terceiro partido mais forte da Câmara de Deputados é a recém-formada União Brasil (criada a partir do antigo Partido Social Liberal, ao qual Bolsonaro pertencia em 2018, em aliança com os Democratas, herdeiro do PFL) com 59 deputados e 11 senadores, seguida pelo PP (Partido Progressista, que também surgiu da ARENA e é o partido do atual presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira, que estava aliado a Bolsonaro) com 47 deputados e 7 senadores. Com o PL (99), União Brasil (59), PP (47), Partido Social Democrático (42), Republicanos (42), Podemos (12), Avante (7), Partido Social Cristão (6), Patriotas (4), Partido Novo (3), e o Partido trabalhista Brasileiro (1), Bolsonaro chega a um total de 322 deputados, ou seja, 62%, assim como 51 das 81 cadeiras no Senado. Logo após o resultado do primeiro turno o PDT (Partido Democrático Trabalhista, do candidato Ciro Gomes) declarou apoio a Lula e ele buscou os 42 do MDB (Movimento Democrático Brasileiro da candidata Simone Tebet), os 4 do Solidariedade, os 3 do PROS (Partido Republicano da Ordem Social) e os 7 do Avante para conseguir o apoio de mais 73 deputados 13 senadores. Assim, com todas as concessões, seria possível uma ampla aliança que atingiria, no máximo, 35% na Câmara dos Deputados e 30% no Senado. O PT tem um governo de minoria parlamentar, porque o resultado eleitoral significa uma forte legitimação do governo Bolsonaro em todo o Brasil. Mesmo no Nordeste, onde Lula venceu em todos os estados, a situação não é boa, especialmente nos parlamentos estaduais. Em todo o Brasil, não há nenhum estado, no qual o PT tenha mais deputados do que Bolsonaro. Em quatro estados (Acre, Amazonas, Sergipe e Tocantins) existem até mesmo apenas deputados dos partidos que apoiaram Bolsonaro. Muitos dos deputados bolsonaristas foram eleitos em São Paulo (45), em Minas Gerais (36), estado onde Lula venceu, no Rio de Janeiro (29) e na Bahia (25), o segundo melhor resultado eleitoral de Lula no país. Está claro que Lula obteve muito mais votos do que seus partidos aliados juntos e que Bolsonaro obteve muito menos votos do que seus partidos de direita. Ou, dito de outra forma, o bolsonarismo é muito mais forte que Bolsonaro e Lula é eleitoralmente muito maior que todos os partidos de esquerda juntos. Dos 27 governadores, Lula poderá contar inicialmente com 4 do PT (Elmano de Freitas no Ceará, Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte, Rafael Fonteles no Piauí e Jerônimo Rodrigues na Bahia), e 3 do PSB (Renato Casagrande no Espírito Santo, Carlos Brandão no Maranhão e João Azevedo na Paraíba). Talvez, em decorrência de uma ampla aliança na formação do governo, ainda poderá selar definitivamente o apoio dos 3 do MDB (Paulo Dantas em Alagoas, Ibaneis Rocha em Brasília e Helder Barbalho no Pará) e 1 do Solidariedade (Clécio Vieira no Amapá). Vieira, Barbalho e Dantas já acenaram postivamente nesse sentido. E, no melhor dos casos, se o PSDB também participar do governo, Lula poderia contar com mais 3 (Raquel Lyra em Pernambuco, Eduardo Riedel em Mato Grosso do Sul e Eduardo Leite no Rio Grande do Sul). Isso representaria um total de 17 contra 10 governadores. Ao contrário da situação no Congresso Federal, isso significaria uma maioria para Lula, mesmo que Bolsonaro possa contar com os 3 governadores dos estados com as maiores populações (Romeu Zema Neto em Minas Gerais, Cláudio Castro no Rio de Janeiro e Tarcísio de Freitas em São Paulo).

5. E em relação à questão étnica e de gênero, como ficou a representação no Congresso Federal?

Houve um aumento significativo de candidatos negros, mulheres, indígenas e LGBTQ+ eleitos em 2022. Do total de 26.073 candidatos registrados, 9.415 (33,2%) eram mulheres, 14.015 eram negras (53,7%), 175 eram indígenas (0,7%) e 112 eram de origem asiática (0,4%). Há 135 deputados negros (26%) eleitos, embora 56,1% da população brasileira seja identificada como negra. No entanto, a maioria dos 77 negros eleitos pertence a partidos que apoiavam Bolsonaro. Entre os LGBTQ+, um total de 18 foram bem-sucedidos desta vez (14 para os parlamentos estaduais e 4 no parlamento federal), duplicando o número anterior e todos são de partidos de esquerda. Entre as mulheres, os números aumentaram dos atuais 77 para 91 (18%), embora 52,5% da população brasileira sejam mulheres. PT e PL juntos representam 40% das mulheres eleitas. Desta vez foram eleitos cinco deputados indígenas (2 do PT, 2 do PSOL e 1 do PL) e três de origem asiática (todos em partidos de direita).

6. É verdade que, à esquerda do PT, o PSOL foi bem sucedido?

Sim, o PSOL teve o seu o maior sucesso eleitoral, com 12 deputados, mas não elegeu nenhum senador. Importante também é que dos deputados eleitos, 5 são de São Paulo, 5 do Rio de Janeiro, 1 de Minas Gerais e 1 do Rio Grande do Sul, ou seja, todos de capitais do Sul ou do Sudeste. A eleição de Guilherme Boulos como o candidato mais votado em São Paulo contribuiu decisivamente para isso. No Rio de Janeiro, o PSOL alcançou o mesmo número de deputados do PT. Seu parceiro de aliança REDE elegeu dois deputados (1 em Pernambuco e 1 em São Paulo).

7. Por que alguns sindicalistas de destaque falharam na eleição (por exemplo, Vicentinho)?

Vicentinho recebeu apenas 82.912 votos desta vez, um pouco mais que os 70.645 que foram suficientes para ele ser reeleito em 2018. Em geral, as antigas “celebridades” não foram eleitas porque não conseguiram assegurar uma continuidade clara com seu eleitorado tradicional e simplesmente não são mais conhecidas por muitas pessoas. Vejamos, por exemplo, o fracasso de José Serra, ex-candidato à presidência e opositor de Lula em 2002; ele não foi eleito como deputado federal em São Paulo. Ou o fracasso da ex-senadora Heloísa Helena, agora porta-voz da REDE Sustentabilidade, no Rio de Janeiro, ou os poucos votos para a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (embora o PSOL tenha ido bem como partido desta vez), ou mesmo a ex-ministra Marina Silva, a ambientalista mais conhecida do Brasil, eleita como deputada federal com 237.526 votos, apenas um terço do ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, embora este último tenha contribuído fortemente para a destruição da floresta tropical amazônica e é suspeito de apoiar o comércio ilegal de madeira. No entanto, isto não se refere à questão dos sindicalistas, pois eles não tiveram maiores prejuízos nesta eleição. Os metalúrgicos do estado de São Paulo elegeram um deputado federal e um deputado estadual: Luiz Marinho, ex-ministro do trabalho de Lula, ex-presidente da confederação sindical da CUT e ex-prefeito de São Bernardo do Campo, obteve 156.202 votos; Teonílio Monteiro da Costa (apelidado de Barba, também da liderança dos sindicatos de metalúrgicos da região do ABC) obteve 108.071 votos para o parlamento estadual. Essas “duplas” de candidatos, ou seja, um candidato para o Congresso Nacional e um candidato para a Assembléia Legislativa Estadual, constituem uma estratégia comum nas campanhas eleitorais para certas categorias de assalariados e sindicatos e funcionaram bem nessa eleição.

8. Para onde irão os partidos moderados até há pouco dominantes como PSDB e MDB?

Desde a redemocratização o MDB esteve presente em todos os governos e tentará novamente desta vez, especialmente depois que sua candidata Simone Tebet decidiu fazer campanha ativamente ao lado de Lula no segundo turno. Entretanto, é importante lembrar também que o MDB é o partido de Michel Temer, o vice-presidente de Dilma Rousseff, que teve a maior responsabilidade no golpe de 2016, juntamente com o presidente do Congresso, o também emedebista Eduardo Cunha. Como já relatei, o MDB elegeu, em 2022, 42 deputados federais (8 a mais do que em 2018), 10 senadores e 3 governadores. Embora o MDB não tenha decidido apoiar Lula no segundo turno dessas eleições, certamente será um dos principais aliados do próximo governo. O PSDB tem sido historicamente o principal partido de oposição ao PT. Lula perdeu contra ele 2 vezes (1994 e 1998) e venceu duas vezes (2002 e 2006). Dilma Rousseff também ganhou duas vezes contra o PSDB (2010 e 2014). E, quando o então derrotado em 2014, Aécio Neves, ameaçou não reconhecer o resultado das eleições, se iniciou de fato o golpe de 2016, no qual o PSDB desempenhou um papel de liderança com o MDB e ambos compuseram juntos o governo Temer. Mas, após a derrota de Geraldo Alckmin (que perdeu a eleição de 2006 para Lula e ficou em quarto lugar em 2018 com apenas 5% dos votos), o PSDB estava fracassado ao nível federal, afetado pelo bolsonarismo, que ficou forte com o golpe contra Dilma. Na eleição desse ano, o PSDB elegeu apenas 18 deputados federais (11 a menos que em 2018), 4 senadores e 3 governadores. No estado de São Paulo (seu histórico reduto eleitoral), o PSDB sequer chegou ao segundo turno para governador, e no Rio Grande Sul só conseguiu que seu governador Eduardo Leite fosse reeleito com o claro apoio do PT. Desta vez, tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quanto o ex-candidato presidencial José Serra declraram apoio a Lula no segundo turno. Também Geraldo Alckmin, o candidato presidencial de 2006, que mudou para o PSB e se juntou a Lula como candidato à vice-presidência. No estado de São Paulo, pela primeira vez, a direção do PSDB decidiu apoiar Lula no segundo turno, embora o atual governador, Rodrigo Garcia, seu candidato à reeleição, não tenha apoiado o candidato do PT, Fernando Haddad, mas o ex-ministro bolsonarista Tarcísio de Freitas. Lula provavelmente não poderá contar com o apoio total do MDB e do PSDB, mas tudo indica que a maioria deles poderá participar da formação de uma aliança em torno do novo governo. Provavelmente esses partidos teriam poucas outras alternativas, pois embora ambos estivessem alinhados contra o PT até recentemente, a recente guinada do país para a extrema-direita também não lhes favorece.

9. Que opções de ação restam a um governo Lula para promover políticas progressistas?

Desde o golpe de 2016 contra a presidente eleita Dilma Rousseff, o Brasil mergulha em uma crise política crescente. No contexto de uma crise econômica prolongada, isto foi agravado pela diminuição da capacidade de investimento do Estado, diante da qual os dois presidents seguintes, Michel Temer e Jair Bolsonaro apostaram fortemente na privatização, no desmantelamento dos programas sociais e na expansão das exportações agrícolas. Os resultados dessas políticas governamentais podem ser resumidos da seguinte forma: desindustrialização, aumento da inflação, aumento do desemprego, maior concentração da terra, pobreza e, por último, mas não menos importante, o retorno do país ao mapa da fome da ONU. O maior desastre foram as políticas ambientais e indígenas, pois com o apoio do crescente poder dos grandes proprietários de terras no parlamento, os dois governos viram os abundantes recursos naturais do país como uma oportunidade para atrair investimentos e expandir projetos destrutivos. Isto também explica o apoio esmagador dos grandes proprietários de terras a Bolsonaro e torna a implementação da reforma agrária particularmente difícil. As violações dos direitos humanos e a destruição ambiental são a dupla característica de um período de ataque deliberado à democracia e ao Estado de Direito. Soma-se a isso a incapacidade política do atual governo em lidar com a crise econômica e o aprofundando das crises políticas e sanitárias no contexto da pandemia da COVID-19. Diante desse contexto, Lula, evidentemente, terá desafios muito diferentes dos que enfrentou em seus mandatos anteriores. E isto ainda em uma situação de divisão política na sociedade e de poder crescente da esmagadora oposição. Mas, isto pode mudar, porque na história do presidencialismo brasileiro muitos parlamentares tendem a se adaptar aos governos. Mais do que ninguém outro, Lula demonstrou essa habilidade política de compor maioria em governos anteriores e mesmo lideranças políticas identificadas com Bolsonaro certamente preferem estar ao lado de quem venceu a eleição. Nesse sentido, o novo governo poderia tentar primeiro reverter as decisões dos últimos anos, que foram implementadas por meio de decretos. A discussão sobre o orçamento para 2023 também precisará iniciar o mais rápido possível, caso contrário, promessas importantes feitas na campanha eleitoral (como os auxílios emergenciais para os mais pobres, o aumento do salário mínimo e uma isenção do imposto de renda para quem recebe até 5 mil reais) não poderão ser implementadas. Tais negociações são muito urgentes, mas também contam com o apoio da maioria da sociedade e podem mostrar ao governo sua atual margem de ação. Para um novo governo, trata-se também, de conquistar uma capacidade de agir para neutralizar o descrédito na política causado por Bolsonaro. Depois disso, seria importante tentar construir, com a ajuda da nova aliança política resultante da formação do governo, um entendimento no parlamento sobre questões importantes como a reforma trabalhista e a reforma previdenciária, que têm consequências negativas para a maioria da população e podem contribuir para a mobilização social. E, simultaneamente, voltar a implementar programas sociais anteriores relacionados à redução da fome e da pobreza, que não podem esperar mais, para então passar gradualmente às questões mais difíceis, como a reforma agrária, a reforma tributária, a desprivatização e o fortalecimento das empresas estatais. É claro que se espera muito mais deste governo, como, por exemplo, que não se repitam os erros na política ambiental e indígena dos governos petistas anteriores; mais investimentos em educação, saúde e ciência; a promoção da agroecologia e da economia solidária, créditos para impulsionar a infraestrutura e o desenvolvimento, assim como o retorno a uma política externa multilateral. Mas, isto depende da possibilidade de contar com uma maior participação da sociedade na tomada de decisões e na implementação dos programas planejados. Mais participação política e mais democracia é precisamente o que pode fazer a diferença diante da situação atual, para sair da era autoritária. E o PT tem acumulado historicamente uma boa experiência com isso, seja através do orçamento participativo, conhecido mundialmente, ou também através dos muitos fóruns, conselhos e instâncias amplamente democráticas de decisão, que já foram apresentados na campanha eleitoral e têm grande aprovação na sociedade. O PT nunca teve maioria nos parlamentos e está na hora de aprender novamente com sua própria história o que o tornou tão bem-sucedido e não repetir os erros que o enfraqueceram, quando reduziu sua ação política a alianças parlamentares sem uma mobilização correspondente da sociedade.

10. Será que o PT, a esquerda e os movimentos sociais se mobilizarão desta vez para mudar a correlação de forças em vez de assistirem ao governo e permanecerem passivos?

No Brasil, como eu disse, foi eleito um parlamento com uma maioria de oposição ao próximo governo presidencial. E, precisamente por isso, a mobilização social é tão importante. Parece que tanto o PT, a esquerda em geral e os movimentos sociais entenderam isso agora, após serem confrontados com uma mobilização crescent da direita nas ruas. Portanto, agora também é o momento de conquistar a hegemonia na sociedade civil, pois embora tenha sido alcançada uma vitória eleitoral com Lula, o bolsonarismo pode celebrar uma vitória política apesar da derrota nas eleições presidenciais. Afinal de contas, para o bolsonarismo não se trata apenas de vencer eleições, mas de mudar a sociedade. E até mesmo a esquerda precisa aprender isso novamente, após décadas priorizando eleições e governos. Por outro lado, sob um governo democrático, as condições políticas para contribuir em uma mudança progressiva através da mobilização social agora são muito melhores. Isto porque tanto o governo quanto os movimentos sociais precisam contribuir para a elevação cultural da consciência das pessoas, através da implementação de políticas sociais progressistas. E isto, também, só será possível através de uma maior participação popular na tomada de decisões governamentais. Já se deveria ter aprendido com a história recente do país que o fracasso de um governo de esquerda pode levar a uma maior despolitização, contribuindo para o fortalecimento dos movimentos proto-fascistas também na sociedade civil.

11) Qual é o papel dos milhões de evangélicos neopentecostais que, em certo sentido, têm atuado numa ofensiva em favor do bolsonarismo? Por que eles tem sido bem sucedidos nisso e atuam politicamente de uma forma tão unilateral?

As novas igrejas neopentecostais vêm crescendo no Brasil há décadas. Elas possuem muito dinheiro, têm suas próprias emissoras de televisão e rádio e até conseguem constituir fortes bancadas no parlamento. Dos últimos governos (especialmente do atual, com quem alegavam compartilhar uma visão de mundo comum, como parte de sua cultura moral conservadora), elas receberam várias anistias de dívidas, muitos benefícios fiscais e até empréstimos. Elas são especialmente bem sucedidas em bairros mais pobres de cidades e propagam para um mesmo público exatamente o oposto da proposta da teologia da libertação nos anos 70 e 80. Assim, ao invés de estimular a conscientização, a formação política e a organização social para libertar os mais pobres da pobreza e das dificuldades econômicas, elas se baseiam na teologia da prosperidade, ou seja, que o sucesso seria decorrência de quão fortemente as pessoas acreditam em Deus. Elas também atuam de forma mais efetiva exatamente onde o Estado falha e as pessoas ficam bastante vulneráveis à manipulação por parte de muitos líderes dessas igrejas, que agem, por exemplo, de maneira semelhante ao movimento da Opus Dei, que atuou na Igreja Católica durante a ditadura militar em vários países da América Latina. É um movimento muito forte não só no Brasil, mas também especialmente nos Estados Unidos, onde, afinal, ele teve sua origem. É um fenômeno muito difundido e crescente no Brasil e estes movimentos bastante sectários têm atuado, de fato, como um partido político.

12. A Amazônia é considerada o “pulmão verde” do nosso planeta e muito importante do ponto de vista climático. Que políticas o governo Lula precisa criar para evitar a destruição futura da floresta tropical?

Em primeiro lugar, ele precisa reverter as desregulamentações que ocorreram nos últimos cinco ou seis anos. Isto significa que é necessário um maior controle estatal na Amazônia, onde o comércio ilegal de madeira, a mineração e o garimpo estão destruindo as reservas indígenas. Isto precisa parar urgentemente! O governo Bolsonaro emitiu uma espécie de cheque em branco para a destruição ambiental. Ou seja, o governo não só desistiu de controlar, como até participou ativamente da destruição! Ele está sendo investigado de ter apoiado o crime organizado na destruição da Amazônia. Para o novo governo, trata-se agora de tentar, passo a passo, se opor efetivamente à desregulamentação dos controles e, por outro lado, restaurar as medidas e ações políticas que existiam antes. Em termos gerais, o Brasil precisa de outra política econômica, que não se baseie mais em exportações agrícolas que contribuem para a destruição da Amazônia, pois o desmatamento é seguido pela expansão de monoculturas como a produção de soja, mas também a pecuária extensiva nas regiões amazônicas. É necessária uma política econômica focada no pós-crescimento e na sustentabilidade, que não se baseie mais na destruição dos recursos naturais ainda abundantes!

13. O número de pessoas famintas no Brasil cresceu recentemente para mais de 30 milhões. Que programas sociais devem vir agora?

Eu espero que seja implementada a reforma agrária, prevista em lei desde 1964, o retorno de importantes programas sociais de combate à pobreza e à fome, e que o Ministério do Desenvolvimento Agrário (que foi abolido) volte a ter uma função importante. É preciso reconhecer, de uma vez por todas, a importância da agricultura familiar para a produção de alimentos no Brasil. A segurança alimentar precisa estar ligada à conservação da natureza, e os pequenos agricultores e povos indígenas são fundamentais para isso. Eles foram os mais afetados pelas atuais políticas agrícolas no Brasil. Há programas importantes, que precisam ser retomados, porque são experiências que deram certo e mostram ser possível mudar a situação: o Fome Zero; o programa de alimentação escolar; a compra de alimentos diretamente das organizações locais da agricultura familiar; uma garantia de comercialização e preços mínimos para a produção dos agricultores; o investimento governamental para a melhoria da infra-estrutura rural; uma assistência técnica socialmente apropriada; o apoio ao processamento e comercialização cooperativa de produtos regionais; a renegociação de dívidas para pequenos agricultores; um seguro para perda de colheitas e a disponibilização de crédito a grupos específicos, como para mulheres agricultoras, para jovens rurais e para a agricultura orgânica. O Brasil saiu do mapa da fome da ONU em 2014, mas somente até 2018. A maioria das pessoas afetadas pela fome vive em áreas rurais, onde não conseguem mais produzir alimentos e se alimentar. Esperamos muito que isto mude a partir do próximo ano. Que o novo governo aprenda com a história, para que não se continue desperdiçando e destruindo nossos importantes recursos naturais e possamos usar o potencial do país para a produção de alimentos ecológicos e saudáveis.

14. O governo Lula pode contribuir para a consolidação de novas relações de poder em toda a América Latina?

Mesmo que atualmente existam governos na América Latina que são diferentes ou melhores do que antes, falta a mobilização necessária para uma mudança maior, como acabei de mencionar. Pode ser frustrante se dar conta de como estas sociedades ainda são conservadoras. Provavelmente haverá avanços, mas longe da forma como havia sido num passado recente. Novos governos foram eleitos, como na Argentina, Bolívia, Chile e Colômbia, mas não se percebe uma mobilização social permanente. Portanto, isso é algo contraditório. Por isso, os próprios governos progressistas eleitos precisam ajudar a promover uma mobilização para uma sociedade melhor. E, nesse sentido, a eleição de Lula certamente tem um grande impacto em países vizinhos como a Argentina e o Uruguai, mas também em outros países deste mundo que estão vivenciando momentos semelhantes de crescimento de partidos e movimentos de extrema-direita.

15. O que você espera de um governo Lula em relação ao governo dos Estados Unidos e da União Europeia? O que você espera da União Europeia?

O que o Brasil mais precisa agora é democracia. E as eleições são apenas uma parte disso, mesmo que elas mostrem que muitas pessoas ainda apoiam o atual presidente, apesar de seu absurdo desrespeito aos direitos humanos e o não cumprimento de normas mínimas para a democracia. Esperamos que a União Europeia e o governo dos Estados Unidos não tolerem nenhuma tentativa de golpe e contribuam decisivamente para o reconhecimento do presidente eleito e para o fortalecimento da democracia e dos direitos humanos no Brasil. Entretanto, isto também inclui a clara rejeição de um acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, em sua forma prevista até agora. Pois ele repete e aprofunda as relações comerciais assimétricas e injustas, que prejudicam o meio ambiente e o clima na América Latina, porque se baseiam na desindustrialização, na dependência econômica e na pilhagem de recursos naturais em curso há séculos. Não poderiam ter sido adotadas sanções contra o governo Bolsonaro, se ele obviamente é responsável pela destruição ambiental e se opunha explicitamente à democracia e aos direitos humanos? Isso não poderia ter sido evitado? Era possível não importar mais essas matérias-primas baratas? Ou tivemos novamente um problema de hipocrisia dos chamados países industrializados? Sabemos que não foram apenas a maioria das grandes empresas e bancos brasileiros, mas também a maioria das grandes empresas e bancos norte-americanos, europeus e alemães que apoiaram o governo Bolsonaro por interesses de lucro a curto prazo. No entanto, já foi discutido no âmbito da União Europeia, por exemplo, que a soja do Brasil deveria ser mais cara ou pelo menos rejeitada se vier de regiões onde ocorrem desmatamento, violações dos direitos humanos, trabalho escravo e trabalho infantil. Isso sem mencionar o uso da transgenia e agrotóxicos, cujos resíduos também voltam para a Europa e causam danos. Como nas eleições de 2022 os latifundiários conseguiram expandir ainda mais seu poder no parlamento brasileiro, podemos esperar uma pressão ainda maior deles sobre o governo recém-eleito do que já vimos durante mandatos anteriores do PT. E mesmo que tenha sido observada uma atitude mais crítica em negociações por parte dos governos, especialmente na Europa, devido à política de desmatamento na Amazônia, a continuidade do poder das grandes corporações agrícolas não deve ser subestimada. Agora precisamos fortalecer ainda mais uma política econômica regional e sustentável em todo o mundo. Uma reforma agrícola socialmente justa e ecológica no âmbito da União Europeia, que apoie os pequenos agricultores, proteja a biodiversidade e o clima, seria um sinal importante para o novo governo brasileiro. Na Alemanha, por exemplo, com a ajuda do Ministério da Alimentação e Agricultura, poderíamos avançar conjuntamente no diálogo sobre política agrícola entre os dois países, com uma maior participação da sociedade civil. O próximo governo Lula não deve de forma alguma ser confrontado pelos EUA e pela União Europeia, se utilizando de argumentos relacionados a um contexto de guerra ou outros para apoiar interesses de corporações agrícolas, prejudiciais ao meio ambiente e aos seres humanos!


* ANTONIO INÁCIO ANDRIOLI é Professor de Ciência Política na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück (Alemanha). Prêmio Baviera de Proteção à Natureza 2020. Pesquisador convidado do CSS (Center for Sustainable Society Research) da Universidade de Hamburgo. Site: http://www.andrioli.com.br  Publicado originalmente em InterSoZ.Org » Lula siegt gegen Bolsonaro. Tradução do entrevistado.

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