A força do documentário “Estamira”

ALEXANDER MARTINS VIANNA*

Este documentário tem um desafio imenso e dá conta dele: confere dignidade, densidade e complexidade a uma pessoa que a vida social empurra para uma existência violenta e violada, para uma caricatura psicótica da extrema pobreza e das relações raciais e de gênero que a singularizam em seu meio social de violências subjetivas e estruturais.

As várias vezes em que Estamira articula as suas violadas e violentas autoproféticas visões de mundo e de si – num embate em que complexifica, ao seu modo, o que vê e como se percebe – fazem-me pensar em atores sociais reduzidos a objetos desvitalizados em alguns estudos. No documentário, contudo, há um sensível cuidado de modulação na montagem e na direção musical para evitar justamente que as demandas de sentido dramatizado do documentário tornassem uma pessoa (já caricaturada pela vida) em mais uma caricatura documentada. A lente provoca empatia pelo que se estranha. Nisso está a sua grande eficácia educativa em sentido modernamente crítico.

Em seus breves lances glauberianos inteligentes de “estética da fome”, o documentário nos faz assumir Estamira: tornamo-nos os seus incômodos; entendemos o lugar de cada palavra e ofensa verbal em sua trajetória; compreendemos a brutal sofisticação crítica de seu olhar sobre o mundo e contra a religião do filho; ou os seus incômodos com os controles médicos homogeneizantes e insensíveis às singularidades de seu corpo. Afinal, em geral, é o rico que consegue um tratamento da depressão ou da psicose centrado em sua singularidade psicótica ou depressiva.

Estamira adere a nós por meio da câmera empática, enquanto o mundo à sua volta a estranha, sem aprender nada… Ela não quer ser engolfada pela religião do filho, pela paradoxal medicina-desigual-niveladora, pelo trabalho que se torna apenas fadiga sem sentido e acumulação para poucos, ou pelo Deus do sacrifício que se ausentou quando ela foi, várias vezes, estuprada, ou vendida para prostíbulo por seu avô materno.

É impressionante a pessoa em si, mas também a forma como ela ecoa em nós por meio da linguagem audiovisual da montagem do documentário. Estamira não é pitoresca, mas sintoma. É um Menocchio possível do lixão de Gramacho. É a metonímia do coletivo tradicional, revoltado e profético estudado por Christopher Hill. Dela não vem a revolução, mas o sintoma da revolução que não chega.

Estamira não foi pega nas malhas da Inquisição, mas da miséria, do machismo, do incesto, do racismo, do adultério, do estupro e do autêntico consolo profético (anticristão!). Às vezes, ela conversa com raio e trovão, e embeleza o chorume, vendo nele o mistério da transformação, ao modo do corpo aberto do mundo de um personagem de Rabelais. Não digo tudo isso para elevar literariamente Estamira. Seria indigno torná-la função de uma analogia ou outra figura palatável para a Oligarquia das Letras (Alberto Lins Caldas​). Digo isso apenas para rebaixar a “máquina tribal” capitalista que a torna possível (Alberto Lins Caldas). Estamira é a nossa ferida aberta, inflamada, fétida e borbulhante, feito chorume…

Felizmente, assisto ao documentário e não fico consolado. Ainda bem!

 

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Filme “ESTAMIRA”, produzido em 2004, lançado no Brasil em 28 de julho de 2006. Direção e roteiro Marcos Prado. Música: Décio Rocha. Acessível em: https://www.youtube.com/watch?v=jSZv8jO9SAU

vianna* ALEXANDER MARTINS VIANNA é professor de História Moderna do DHRI-UFRRJ e coordenador do PROFHISTÓRIA-UFRRJ.

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Um comentário sobre “A força do documentário “Estamira”

  1. Quero receber material para utilização como recurso didático em salas de aula na escola que trabalho, publica.

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