Temos o direito de doutrinar as crianças?!

ANTONIO OZAÍ DA SILVA*


Becky Fischer é pastora evangélica e seu rebanho são as ovelhinhas, as crianças. Ela é especialista em evangelizar os pupilos e os seus pais. O ela ensina? Ela ensina a intolerância religiosa. Sua ideologia é a mesma dos grupos religiosos de extrema direita que apoiaram George W. Bush. Aliás, numa das cenas, os meninos e meninas estendem os seus braços em direção à imagem do ex-presidente dos EUA para abençoá-lo. Religião e política mesclam-se perigosamente.

A mensagem evangélica de Becky Fischer e sua turma é política, porém apresentada com as máscaras da religião. Há um agravante: o público alvo não é os adultos, mas sim as crianças – embora os pais estejam envolvidos neste projeto e o apoiem. O objetivo de Fischer é formar os futuros guerreiro de Deus. Ela defende abertamente a necessidade de doutrinar as crianças e transformá-las em soldados de Deus. Entrevistada por Mike, ela defende seu ponto de vista:

Mike – Falamos com Becky em Bismark, Dakota do Norte. Ela é pastora infantil e dirige um acampamento de verão para crianças evangélicas lá em Dakota. Becky, como está?

Becky – Estou muito bem.

Mike – Por que crianças, por que elas deveriam ser o novo exército de Deus? Por que usam crianças para fazer isso?

Becky – Qualquer um que trabalhe com crianças sabe que a razão pela qual trabalha com crianças é porque tudo o que aprendem na idade de 7, 8, 9 anos ficará lá pelo resto da vida… e existem estatísticas que podem investigar…

Mike – Eu conheço as estatísticas, mas você usou o termo “aprender”. A palavra “aprender” é diferente de “doutrinar”. Deus nos deu um cérebro, Deus nos deu a liberdade de escolher e aprender é parte desta escolha. E acredito que cada vez que o movimento fundamentalista, Becky, interfere com isso, nós estamos prejudicando a evolução da humanidade.

Becky – Não acho que nenhuma criança faça nada por escolha. Pelo que entendi, sua pergunta foi se concordo que está correto que o fundamentalismo doutrine suas crianças com suas crenças. Acredito, basicamente, que sim. Porque todas as outras religiões estão doutrinando suas crianças.(…) Gostaria de ver mais igrejas doutrinando.

Mike – Pode se dizer a uma criança qualquer coisa. Assim como eu digo, pode dizer a uma criança… pode transformar uma criança em um soldado que carrega um AK-47.

Becky – Pode chamar de lavagem cerebral, mas sou apaixonada e radical em ensinar às crianças sobre sua responsabilidade como cristãos, assim como temerem a Deus, como americanos, se quiserem chegar…

Mike – Bom Becky, deixe-me lhe fazer uma pergunta. Como ignorar que, de repente, estamos criando soldados crianças para o Partido Republicano? O que isto tem a ver com qualquer coisa que Cristo disse sobre como devemos viver nossa vida na Terra?

Becky – É… Não tenho certeza… Não conheço igrejas que tenham agendas políticas. Eu não persigo as minhas crianças politicamente… sinto que, sabe…porque ao mesmo tempo, quero dizer… não tenho nenhum problema em dizer às minhas crianças que estamos a favor da vida.

Mike – Eu digo Deus está nos observando… (…) E Deus tem um lugar muito especial para aquelas pessoas que maltratam nossas crianças. Não é um lugar bonito.

Becky – Não caio nessa, Mike.

Mike – Sabe o que sempre fez com que este país fosse especial? O que sempre diferenciou este país é que existe algo que chamamos de separação entre Igreja e Estado. Isso é algo que sempre nos separou e tem separado por 200 anos. Isto funcionou. Eu respeito seu direito como fundamentalista de ensinar às crianças qualquer coisa que queira, mas não deixe que o sangue manche o setor público. Não deixe que manche de sangue as escolas.

Becky – Não concordo com você, o cristianismo é importante. Acreditamos que é a religião mais importante do mundo porque transforma a vida das pessoas.

Mike – Mas Becky, é uma poção de bruxa e irá se apoderar da democracia.

Becky – Sabe, acho que a democracia é o maior sistema político na Terra, mas só isso, é o único… o único sobre a Terra… e em última instância está desenhado para destruir a si mesmo, porque temos que dar a todos a mesma liberdade e isso no final será o que vai nos destruir. E então o mundo perfeito não vai ser perfeito até que Jesus seja o verdadeiro Senhor.

Mike – Becky, obrigado por estar conosco.

Becky – De nada.

Mike e Becky Fischer

Peço desculpar pela longa citação, mas a entrevista sintetiza as questões principais presentes no documentário Jesus Camp (O Acampamento de Jesus)*, na sociedade estadunidense e em qualquer lugar no qual o fundamentalismo religioso se manifeste. O desenlace da entrevista mostra bem a impossibilidade de dialogar com tais pessoas. Elas se veem como porta-vozes de Deus, missionárias de uma guerra santa para instituir o reino de Deus na terra. Elas dizem que Deus é Onipresente, Onisciente e Onipotente. Por que, então, Deus precisa delas para se fazer ouvir?

Pessoas como Becky Fischer consideram-se indivíduos especiais, intérpretes inquestionáveis da palavra de Deus, da verdade revelada a elas! Veem-se como a voz de Deus, portadores da verdade absoluta. Se dependesse delas, as fogueiras da inquisição permaneciam a arder e a queimar os ateus, hereges, mulheres que abortam, defensores da descriminalização do aborto, gays e lésbicas, que elas consideram anormais e aberrações da natureza. Conservadores até a medula, não suportam a mínima alteração no que consideram a ordem natural das coisas. Na cruzada contra o mal, isto é, contra tudo o que não se encaixe em sua tacanha concepção do mundo, veem-se como os salvadores de almas e imaginam ter o mandato divino para manter-nos no reto caminho do Senhor!

Becky Fischer organiza anualmente o Acampamento de Jesus. As cenas mostram crianças em transe, chorando convulsivamente, aos gritos. Os soldados-mirins de Deus “aprendem” o criacionismo e são “ensinados” a desvalorizar a ciência e a negar-se a aprender teorias que não estejam de acordo com as suas crenças. O documentário mostra que entre os pais que retiraram os filhos do ensino formal reconhecido pelo Estado, a maioria é evangélicos. A pastora “ensina” que o aquecimento global é um mito da ciência. Nem Harry Potter escapa da sua língua afiada, considerado discípulo do demônio.

O mais impressionante é a atitude das crianças, a forma como elas se envolvem e se entregam emocionalmente. O documentário acompanha a rotina de Rachel, Tory e Levi. As atitudes e falas destas crianças são reveladoras do poder da doutrinação. Os métodos “pedagógicos” adotados por Becky, temos que reconhecer, são eficazes. E ela faz um de todos os recursos que facilitem o “aprendizado” das crianças. Por outro lado, é assustador e inquietante observar como as crianças se transformam, a fé cega que os movem, as ações que revelam e nutrem a intolerância. Elas se consideram portadores da inspiração divina, membros do exército de salvação do Senhor.

A entrevista reproduzida acima deixa bem claro a argumentação da pastora. Ela não ver nenhum problema em doutrinar as crianças, pelo contrário, considera legitimo e justifica – inclusive se referindo à formação das crianças sob o islamismo. O entrevistador diferencia “ensinar” de “doutrinar”. Particularmente, concordo com ele. Não obstante, precisamos refletir sobre os limites entre um e outro. A verdade é que, em qualquer cultura, em qualquer sociedade, as crianças são moldadas à imagem e semelhança dos adultos, ou seja, das verdades, crenças e costumes da sociedade adulta. Esta é uma função da religião, mas também da escola, família e outras instituições sociais. Em que medida estes processo de formação das crianças está vinculado ao “ensinar”? Ou é doutrinação?

O argumento de Becky Fischer chama a atenção por seu extremismo, mas fico a pensar sobre o que fazemos com as nossas crianças sob formas de “doutrinação suave”. O fato é que nenhuma criança nasce cristã, islâmica ou judaica, mas é a família e outras instituições sociais que as transformam segundo a religião que seguem. Que direito temos de doutrinar nossos filhos, nossas crianças? De qualquer forma, não é só a religião que doutrina, mas também instituições laicas e ideologias seculares. Na verdade, todos querem controlar as mentes e as almas das crianças. Talvez um dia aprendamos a educar as nossas crianças sem os recursos das religiões, dos ismos e sem a tutela do Estado. Quem sabe ainda aprendamos a educar para a liberdade e nos libertemos de todos os fundamentalismos, sejam eles de cunho religioso ou político-ideológico!

Ficha Técnica

Título: O Acampamento de Jesus
Título original: Jesus Camp
Gênero:
Documentário
Diretor:Heidi Ewing e Rachel Grady
Duração:84 min.
Ano de Lançamento:2006
País de Origem:E.U.A.


* ANTONIO OZAÍ DA SILVA é professor do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá.

* Disponível na íntegra em http://vimeo.com/46542148#at=0

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8 comentários sobre “Temos o direito de doutrinar as crianças?!

  1. DEUS É DEUS. BOM PARA SEMPRE. HOEM É BOM OU MAL. DIFAMADOR OU BENDIZENTE…ESPERO NUNCA TER QUE DISCUTIR COM QUE QUER “discutir”.

  2. Creio que a doutrinação leva a alienação, em especial, quando se trata de crianças e jovens ainda sem o amadurecimento necessário para decidir em que acreditar ou que causa defender, modo de vida a seguir, ou seja, ainda nem desenvolveram o senso crítico necessário a se posicionar. Desta forma, mais parece lavagem cerebral, não trantando-se de um processo educativo, construido dentro da diversidade de pensamento e idéias. Já não temos a Educação Religiosa e a Filosofia a se prestar democraticamente ao construção de uma socieadade onde se busca pluralidade, a unidade na diversidade, a liberdade de expressão, o estado laico, o direito e o respeito a professar suas crenças?

  3. Creio que exista exagero em sua observação, José Frid…

    Não creio que a ocupação do Tibet se deva à intolerância dos budistas… Nem que, apesar “das mesmas notícias de sempre”, uma parte significativa dos muçulmanos sejam capazes de matar por sua fé. Da mesma forma, não vejo qualquer indício do que escreveu nos últimos 300 textos escritos pelos últimos Papas. E assim por diante.

    O que não significa dizer que qualquer um possa, em nome da religião ou da política, dividir, de um momento para o outro, o mundo em “fiéis e infiéis”, “conservadores e revolucionários”, etc.

    Em termos de vidas humanas, o primeiro lugar é ocupado, até o presente momento e com grande vantagem, por grupos políticos e não por grupos religiosos: genocídio ucraniano + revolução cultural chinesa + Camboja + União Soviética do período stalinista (para citar apenas os principais…) deixam a Inquisição Católica e o Terrorismo Islâmico como tímidos ensaios dos acontecimentos que citei.

    Nesse sentido, tenho de ser otimista: os tempos difíceis ficaram para trás…

  4. “A verdade é que, em qualquer cultura, em qualquer sociedade, as crianças são moldadas à imagem e semelhança dos adultos, ou seja, das verdades, crenças e costumes da sociedade adulta. Esta é uma função da religião, mas também da escola, família e outras instituições sociais. Em que medida estes processo de formação das crianças está vinculado ao “ensinar”? Ou é doutrinação?”

    O trecho acima é talvez o mais significativo do texto. Não há como o problema ser resolvido, caro Ozaí. Tal aspecto é inerente à nossa condição de humanos sociais… Da mesma forma como não podemos, por nossos próprio meios, voar ou viver debaixo d’água, também não podemos ser “completamente nós mesmos e socialmente auto determinados”.

    Eu poderia, no caso de meus filhos mais novos, e que ainda têm 4 e 5 anos, decidir (e o problema já começa aí: alguém terá de decidir isso!) que escolham, por si mesmos, o que querem ser e pensar. Para que esse projeto seja realmente eficaz, posso inclusive deixar que escolham, quando o momento surgir, que língua preferirão falar (considerando que existe algo de impositivo nisso de terem de falar português; ou além de português, no caso de outros pais, também inglês, klingon, etc). Às muitas questões que surgirem nesses primeiros anos de vida, responderei sempre com respostas evasivas, deixando que, no futuro, quando tiverem consciência de si mesmos, possam fazer suas próprias escolhas. Tentarei, ao mesmo tempo que forneço essas respostas evasivas, mostrar as inúmeras alternativas que existem em termos de religião, política, alimentação, esportes, profissões, etc. Tentando inclusive não ser tendencioso, em nenhuma dessas informações.

    Qual seria o resultado desse experimento? Talvez se tornassem, se o projeto tiver sido levado adiante com absoluta seriedade e eficiência, adultos apatetados, incapazes de decidir o que fazer, tal o grau de relativismo com que poderão interpretar o mundo!
    Ou talvez, no meio do caminho, por conta de algum acidente do destino, um deles ou ambos, poderia vir a se encantar com alguma coisa ou ideia que viu por acaso em algum lugar (a existência de partidos neo nazistas, por exemplo!).

    A alternativa a esse projeto seria… o que todo mundo faz! Ou seja, usar do bom senso e dos meios disponíveis para efeito de transmitir aos filhos ou alunos, aquilo que entendemos como sendo o mundo, o sentido da vida, etc. O problema é que, como já havia observado Descartes, todos se imaginam donos de quantidade suficiente de bom senso. Inclusive a amalucada Becky, do filme!

    Grande abraço e parabéns pelo artigo!

    Fábio.

  5. Enquanto houver religiões, haverá guerras e perseguições entre seus seguidores. Todos se declaram estar com a verdade e morte aos infiéis! Tempos difíceis pela frente!

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